segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TIMBAÚBA - I


I – TIMBAÚBA – Uma fazenda no Século XIX.  

Ilustração de Dorian Gray
 Evidentemente que essa fazenda já não mais funciona no estilo do Século XIX; foi desativada há mais de cinco anos com a morte do último proprietário a octogenária Theodora Nóbrega.
Era uma propriedade que pertenceu ao meu avô materno, o velho Zuza  Gorgônio da Nóbrega, e fora herdada do seu pai, o tempestuoso  Gorgônio Paes de Bulhões. Este era filho do irrequieto Cosme Pereira da Costa, lendária figura do Seridó, antigo proprietário da Fazenda Umary, localizada rio abaixo.  
            Gorgônio Paes de Bulhões fundou a Fazenda Timbaúba provavelmente em 1833, ano do seu primeiro casamento; destinava-se à criação de gado e dar apoio ao seu comércio de “bois do Piauí”. Foi numa daquelas demoradas viagens aos sertões de Picos e Oeiras que ele veio a falecer, com cinqüenta anos de idade, na localidade de São Mateus, sertão do Ceará, hoje denominado Jucá, onde foi sepultado no dia 1º de maio de 1865.
            Gorgônio Paes de Bulhões sempre foi um sertanejo agitado, de temperamento alvoroçado, razão porque tinha o apelido de “Gangão Fuzo-doido” (I). O seu filho e sucessor Zuza Gorgônio manteve aquele comércio de gado mesmo após a morte do pai, até quando a atividade deixou de ser vantajosa, cedendo lugar à lavoura  de algodão implantada  nas terras férteis  do vale do rio Barra Nova.(2)


O velho Zuza e sua mulher D. Nanu desenvolvram muito a fazenda e chegaram a criar um bom patrimônio em gado e terras, legando aos seus descendentes.
Enquanto viveram, acolhiam naquele casarão senhorial todos os seus descendentes ficando a casa cheia o ano inteiro. Vivi ali, onde passava as férias escolares, os melhores dias da minha infância e adolescência.

Naquele mundo do século passado, tive ao vivo valiosas lições de vida, onde a Natureza ensinava ao homem a maneira de sobreviver com os próprios meios, naquele ambiente pouco favorável.
O homem e a Natureza conviviam tão intimamente bem, que neutralizavam os efeitos das secas prolongadas, velhas conhecidas deles. Era um sistema de vida altamente simplificado e solidário, comum em todas aquelas antigas fazendas da redondeza. 

Uma vida fascinante e não poderia deixar de ser, tendo em vista as pessoas simples que ali habitavam, cultivando as tradições e perfeitamente adaptadas ao meio ambiente daquele recanto isolado do Seridó.(*)

(I)-Medeiros Filho. (Olavo – “Velhas famílias do Seridó) Edição do Senado Federal – 1981 pags. 237/8.
(2)-Rio Barra Nova como é chamado hoje, nasce nos contrafortes da Serra da Borburema/Pb, entra no Rio Grandedo Norte na cidade de Ouro Branco, corre no rumo Norte, recebe como afluentes vários riachos de águas fortes como o riacho do Poção, da Timbaúba,  o rio Malhada da Areia e o riacho do Manhoso antes de desguar na represa do Itans em Caicó.  Este rio tem em seu leito o melhor aluvião para agricultura e também para cerâmica. É uma região rica de terras e plagiando Vaz de Caminha, “em se plantando tudo dá.”

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

OS VOOS DO GOVERNADOR


Os Voos do Governador 
 Por ser uma atividade nova, nos idos de 1928, não se usava viajar de avião, era uma prática apenas para profissionais: aviadores, mecânicos e radiotelegrafistas cuidando do correio aéreo. 
Mesmo assim, algumas pessoas ligadas às autoridades, aceitavam convites para um aventuroso voo local.  Era um esforço das empresas aéreas para a população se acostumar com a idéia de voar. Isso aqui em Natal ocorria com alguma freqüência por conta do apoio dado às companhias aéreas pelo  Governo do Estado. 
 Voar ia se banalizando, o próprio Governador estimulava juntando-se a um grupo de entusiasta. Fundaram o Aeroclube local e ele fez construir vários campos de aviação no interior do Estado, que ele próprio utilizava sempre nas viagens que fazia no  transporte aéreo:
“Encurtar  as distâncias era promover o progresso”- era a sua palavra de ordem e ia desvendando as  rotas interiorana do Rio Grande do Norte.
 Tem-se registro de inaugurações feito por ele  próprio em vários municípios, como  Ceará Mirim, Acari, Serra Negra, Lages, e outros.  Teve a ousadia de voar do Rio de Janeiro- Capital Federal- até Natal num voo da CGA sendo ele o único passageiro.
Os voos do governador,como tudo que é novo, davam margens para muitas especulações e comentários.
O poeta potiguar Juvenal Antunes (1908-1987) enviou uma carta rimada ao Presidente:
  “Já sei que andou voando de avião. / O Céu é perto? É longe? É ilusão? Conseguiu qual Bilac ouvir estrelas? / Lá pelos ares há mulheres belas? Si, porém lá em cima é tudo macho / Eu vou me aproveitando cá por baixo.” 
O Presidente Juvenal Lamartine desenvolveu a política do uso do avião como uma forma de integração nacional,servindo como  exemplo  aos futuros governantes do Brasil, país continental e geograficamente cheio de obstáculos, não podia ser diferente. 
Quando foi deposto pela Revolução de 30, o Estado do Rio Grande do Norte já tinha além do Aeroclube com curso de pilotagem, um avião  de treinamento (havia dois aviões biplanos “Bluebird” de fabricação inglesa, mas um deles havia se acidentado com Edgard Dantas.) 
 O curso era ministrado por um instrutor cedido pelo Ministério da Marinha (Cmt. Djalma Petit), e em 1930 já havia diplomado a primeira turma de aviadores. 
 A Aviação começava a se expandir no país e se tornar uma atividade importante na vida do povo brasileiro.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

CHICO DE JOANA

CHICO DE JOANA
 Já fazia algum tempo que não tinha contato com
Chico de Joana um homem simples, autodidata,
nascido e criado às margens do Riacho da Timbaúba,
afluente do rio Barra Nova, no município de Ouro
Branco, fazenda dos Cunha de Jardim do Seridó.
Em dias passados aproveitei uma tarde ociosa e fui a casa dele, ali no bairro das Quintas, fazer uma visita.
           Chico de Joana é um escultor cujas obras são talhadas em madeira de Imburana, árvore típica do nordeste brasileiro, maleável, muito usada no artesanato. Seu trabalho é extraordinariamente bem acabado, mostrando o seu poder ilimitado de criatividade. Retrata com muita fidelidade desde os santos católicos às figuras do cotidiano que o cercam. 
            É um artesão polivalente, seu potencial vai mais além, como se a sua missão na terra fosse transformar qualquer coisa em arte.
Estava lá exposta uma poltrona toda esculpida num tronco de mangueira, extraída de uma velha árvore que existia em frente a sua casa.
Segundo ele, será “a poltrona do papai”.
  Junto à parede do seu “estúdio” havia um tronco de Imburana pesando talvez uns 100 quilos, que ele com a sua percepção de artista me chamou à atenção: 
 Num faz lembrar o busto de uma mulher ?
E realmente, aquele pedaço de caule seco e retorcido esteticamente era uma imagem digna de contemplação.
   Foi aí que Chico me adiantou:
Seu Pery, quando eu vejo um pedaço de madeira, um tronco ou uma raiz vem logo na minha mente em que vou transformá-lo; alguma figura ou peça para casa e sempre dá certo.
A minha visita a Chico era mais para fortalecer o nosso relacionamento, relembrar momentos da sua infância vividos na região do Seridó, onde eu também vivi uma parte da minha vida.
Senti que aqueles momentos de prosa com um homem tão modesto, mas dotado de extrema sensibilidade artística, voltado para a sua realidade, foi para mim instantes de reflexão, cultura e prazer.
Há muito tempo não me sentia tão bem e ainda percebi que, sem querer ser pretensioso, pude ajudar o amigo Chico, que naquela tarde teve com quem compartilhar sobre um drama familiar que vive com um filho excepcional.
Nesse mundo conturbado que vivemos, ninguém tem tempo para ninguém, um pequeno gesto como esse de escutar alguém em busca de soluções para algo que está lhe perturbando, é uma atitude que faz a gente se sentir mais humano e solidário.

Por isso, com certeza, valeu muito para Chico e me deixou com uma sensação de uma paz interior por vários dias.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

ANO NOVO NA SERRA BRANCA

O tio Oswaldo nos havia convidado a ir romper o ano novo lá no alto da Serra Branca. Este acidente geográfico é de uma formação rochosa isolada, de forma cônica/piramidal, atingindo uns 300 metros de altura, localizada no lado sul da Fazenda Lagoa Nova, município de Riachuelo, hoje transformada numa imensa pedreira.

Para nos acompanhar nessa aventura e nos dar o apoio necessário, determinamos o auxiliar Pedro Ezequiel, morador da fazenda desde a infância, também caçador naquelas caatingas.  
No dia 30/dez., ele foi ao “pé da serra” para limpar o local onde iríamos montar o “rancho”, de preferência junto a uma árvore frondosa, e em um ponto o mais alto possível; abriu uma clareira na mata, improvisou um meio-fogão, ou seja, uma trempe com blocos de pedra facetados onde se podia fazer um café ou assar uma carne, juntou uma pilha de lenha seca e marcou os locais onde armar as redes.
No dia 31, antes que o sol esquentasse, tomamos um café reforçado e iniciamos a pé o percurso entre a sede da fazenda e o ponto de “arrancho”.
Foi uma caminhada agradável por estrada de terra e pequenas trilhas e duas horas depois, lá pelas 10 horas, já nos encontrávamos na clareira.

  O nosso zeloso auxiliar, um nativo, acostumado andar pela aquela mata desde menino, providenciou um burro/jumento “encangalhado” e um par de caçoar para conduzir os nossos pertences: utensílios de cozinha, alimentos, redes de dormir, espingardas, os foguetões e até uma caixa de pronto socorro com soro antiofídico(exigência de tio Oswaldo).

Antes que o almoço fosse servido, já havíamos iniciado a identificação da melhor trilha para se chegar lá no alto da serra.
Lá pelas 22 horas iniciamos a subida lentamente seguindo em fila à moda dos índios,levando uma  iluminação conseguida com galhos de facheiro incendiados e o nosso “arrieiro” como guia.

 Próximo à meia noite já tínhamos alcançado o local previsto e por ser uma noite sem luar, a nossa visão para todos os lados era uma escuridão total, o que se via lá embaixo,apenas luzes dos pequenos lugarejos e de algumas fazendas que haviam feito fogueiras na frente das casas.
 A brisa havia parado, o silêncio era absoluto, até nós falávamos baixo como se em respeito à natureza. Só as corujas e os caborés, pássaros de hábitos noturnos, por se sentirem incomodados com a nossa presença, vez por outra emitiam os seus piados agourentos típicos dessas aves abundantes na serra.

  Meu pai muito atento para não perder a hora, segurava uma lanterna à pilha, focalizando o mostrador do relógio de bolso que sempre conduzia, enquanto o tio Oswaldo e o companheiro já se preparavam para o momento de acender os pavios dos fogos que iam explodir anunciando a chegada do novo ano;
De minha parte, estava ali sentado numa pedra assustado com toda aquela escuridão, mas ao mesmo tempo, uma sensação de bem estar me envolvia, do alto daquela serra podia ver mais de perto o céu ‘coalhado’ de estrelas e lá embaixo pequenos pontos de luz tremulavam na minha visão.

 Meia noite e um segundo foi acionado o primeiro foguetão, em seguida, uma série deles como havíamos previsto. Podíamos ouvir que algumas fazendas faziam o mesmo, foi como se o mundo todo tivesse acordado.

 Quando os fogos terminaram, o tio Oswaldo e o meu pai numa atitude inesperada, usando toda força dos pulmões e a resistência das cordas vocais, manifestaram através de gritos com muito entusiasmo aquele momento, saudando a chegada de mais um  Ano.  Foi o ponto culminante da nossa aventura.

A descida para o acampamento, no escuro total, bastante lenta, com muito cuidado nas passagens mais difíceis, cada um segurava o outro até chegar à base; o fogo que havíamos deixado aceso nas trempes ainda estava lá, aumentamos as chamas com lenha seca e o nosso auxiliar nos preparou um aromático café para nos confortar e aquecer.
 Mesmo sendo dezembro a temperatura lá no alto, ao nível em que nos encontrávamos, era  fria.
Uma aventura simples que fez revigorar as nossas forças, ânimo e esperança para um futuro que se iniciava naquele primeiro dia de janeiro, que nem lembro mais de que ano.   

Foto obtida no GOOGLE

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Culver LCA Cadet e Piper J-3 Cub


Culver LCA Cadet, N29398 was built in 1940


The Piper J-3 Cub was the most popular commercial aircraft of the 1930’s


AULA DE NAVEGAÇÃO AÉREA


Culver LCA Cadet, N29398 was built in 1940


 Naquele ano de 1944 ainda fazíamos no aeroclube, uma aviação primitiva. Voávamos livre, sem qualquer controle ou apoio (aviões “treiner” não dispunham de rádio, não se fazia planos voos); recebíamos simplesmente instruções de pilotagem, dadas de favor, por alguns oficiais da aeronáutica. 
Soltavam o aluno solo e daí pra frente era uma auto-aprendizagem. Navegar naquelas condições era um problema; recorríamos aos mais antigos dos nossos, e íamos descobrindo como enfrentar todas as situações inusitadas que apareciam pela frente.Mesmo assim,não se perdia a motivação de voar,e quando vencia os nossos limites,sentiamos uma força de realização sem precedentes.
Foi assim que procurei Fabrício Pedroza, na época, o nosso presidente do clube, para receber a minha primeira aula de navegação aérea.  Fui à sua residência ali na Deodoro, esquina com a Rua José Pinto, levando um mapa escolar do Rio Grande do Norte, um transferidor de 360 graus, próprio para navegação aérea, uma caderneta de notas e uma lapiseira.
Abri o mapa sobre a mesa e Fabrício me perguntou se eu sabia algo sobre os pontos cardiais, meridianos e paralelos – “Sim”, respondi. “Então fica mais fácil. Infelizmente esses mapas escolares são muito precários, mas é o que existe e vamos ter que usá-lo.”
 Com ajuda de uma régua traçou uma linha reta entre o aeroporto de Parnamirim e o campo de pouso da Fazenda São Joaquim de propriedade da sua família, localizada no município de São Romão, hoje Fernando Pedroza. 
E assim começou a aula:
“Essa reta significa rota que você irá fazer. Ela tem mais ou menos 200 km de distância. Comece a anotar os acidentes geográficos, estradas, vilas, fazendas que encontrar, não  esquecer de marcar se é do lado esquerdo  ou direito da rota. Os pontos principais (pico do Cabugi, por exemplo), medir a distância dele até Parnamirim. 
 Verificar a altitude da área à ser sobrevoada a fim de determinar a altura que você deve voar.
Ver o tempo de voo até o destino, consultar a velocidade do avião e checar a  autonomia do avião, considerando a possibilidade de ir para um campo de pouso alternativo, se for o caso. 
Determinar no mapa os pontos cardeais, para com ajuda do transferidor determinar o grau da rota a ser seguida. Lembre-se que para nós, aviadores, lidamos com dois pontos norte, o geográfico e o magnético; a bússola segue sempre o magnético, daí necessidade de se conhecer a declinação magnética do Rio Grande do Norte (nesta região  usávamos  menos 20 graus), fazer as correções e determinar o grau correto a seguir.”
Depois dessa explanação cheia de detalhes me adiantou:
 “Vou seguir amanhã cedo para São Joaquim, usarei o avião Culver, mais rápido do que o J-3 que você vai usar, decolo antes, e estarei lá lhe esperando”.
As 06,30 da manhã dei partida no Piper J-3, segui a risca todos aqueles detalhes e fui identificando cada ponto de referência anotada;  o pico do Cabugi, o principal, quinze minutos após a decolagem ele se apresenta em cima da rota. Uma bela montanha com seus quase 600 metros de altura; na formação da crosta terrestre, resultado de uma erupção frustrada, não chegou a explodir, daí a sua forma e rocha calcinada, que ocorre na sua “chaminé”.  Um pico de uma imponência digna de uma boa fotografia.
  Depois de uma hora e trinta minutos de voo estava pousando em São Joaquim. Naquele momento senti-me vitorioso; tudo havia dado certo.
Fui recebido por Fabrício e D. Branca Pedroza, uma gentil senhora com gestos nobres, que me hospedou por uma noite.
No dia seguinte cedo, reabasteci o Piper e decolei em seguida, seguindo a rota ao contrário.  Depois do Cabugi fui perdendo altura e sobrevoei a Fazenda Lagoa Nova do meu avô Lamartine.  Um pátio maravilhoso na frente da Casa Grande que sugeria um pouso. A princípio relutei, mas fiz uma tentativa e conclui que dava para descer.
Com um afastamento longo consegui fazer um pouso, tipo três pontos, e estacionei o avião bem em frente da Casa Grande.  Demorei ali para cumprimentar o meu avô, tomar um café e, em seguida, decolei levando o meu tio Oswaldo como passageiro. 
 Era a liberdade que se tinha naquela época que só foi regulamentada no final dos anos 50.  Bons tempos aqueles...

Foto de Hélio Higuchi -retirada do GOOGLE

sábado, 11 de dezembro de 2010

SERRA VELHA – Escalada em busca de reviver um passado


         Certo dia decidi fazer uma aventura em Serra Negra: subir a Serra Velha pela trilha da “Escadinha”.  Convidei um caçador de mocó daquela região (Antônio, dos Eustáquios) para ser o meu guia. Marcamos a data e a hora. Quando cheguei às primeiras horas da manhã no ponto de encontro ele já estava lá. 
  Iniciamos à caminhada em um ritmo moderado, ele ia à frente com uma foice de roço para abrir a trilha, uma espingarda de soca e eu o acompanhando. 
         A nossa conversa era só amenidades, sobre os novos moradores da cidade, as fazendas que haviam sido vendidas, a escassez de caça na serra; íamos distraidamente conversando, escutando à distância o martelar ritmado de uma Araponga, gritos dos mocós, os rangidos das árvores os aromas e o farfalhar das folhas  vindos da mata; o orvalho ia ensopando as nossas roupa, mesmo assim  andávamos sem pressa.
 Logo mais o sol ia aparecer para nos enxugar. À medida que avançávamos, ganhava-se altitude e o horizonte alargava-se descortinando uma imagem soberba para todos os lados.  
A Serra do Tronco com um tom cinza, mesmo à distância, sentia-se a força dominadora da sua presença na paisagem, e me veio à lembrança do velho caçador Cazuza Sátiro, enfrentando as onças ferozes enfurnadas nas grutas de pedras à espreita da caça.
 O rastro do rio Espinharas que surge na ponta do “Serrote da Igreja”, correndo no rumo norte sumindo por trás da Serra Velha. As fazendas que iam surgindo parecia miniaturas de casas de bonecas.
 A “Escadinha” tem seus lances emocionantes com degraus formados pela ponta dos lajedos que afloram, exige habilidades e cuidados para transpô-los. Vez por outra, através dos ramos verdes dos Cumarús  visualizava-se uma ligeira vista da cidade.
 No cimo do rochedo principal, havia uma passagem perigosa que o guia atravessou sem problemas; pedi ajuda a ele, para me sentir seguro.
 Chegando ao topo do rochedo, lentamente, quase em reverência, ficamos frente a frente com um visual deslumbrante que se estendia até onde a vista alcançava. Ficamos alguns minutos sem dar uma palavra,  para melhor aproveitar as belas paisagens que a natureza nos oferecia naquele momento, e ter o prazer de “escutar o silêncio” que só naquele ambiente se consegue.  
         A cidade “Serra Negra” bem aos nossos pés, realçando a Igreja de N. Senhora do Ó, parecia uma miniatura urbana  com pequenas figuras vivas   movendo-se dentro dela.
 Ali ainda se encontrava os vestígios da permanência de Julio Batista, um parente nosso, quando  esteve  naquele lugar em tratamento de saúde.  
 Fizemos um circuito passando por vários pontos de interesse paisagístico e paramos alguns instantes em cima de uma grande pedra de onde se via os mocós numas locas mais adiante.
 Antônio fez um arremedo, os bichinhos apareceram,  ele atirou abatendo um deles.   No momento que saltou  para apanhar a caça abatida, foi laçado no ar por uma cobra jibóia  ( lá é chamada de cobra de veado). Numa rapidez instantânea de quem aprendeu desde cedo a ter o instinto de sobrevivência  houve tempo dele se livrar dela e abatê-la com um tiro de espingarda.
 Paramos à sombra de uma árvore para se tirar o couro da cobra, que tinha bom valor de mercado. A tarde já ia chegando; hora do regresso. Iniciamos a descida pela rota alternativa chamada 'Agreste', bem mais fácil de ser usada. 
 Foi um dia diferente que me fez relembrar outras visitas que havia feito anos atrás, e me revigorou as forças que estavam meio amortecidas por conta da vida sedentária na cidade.
  Antônio foi bem recompensado com uma caça para o almoço do dia seguinte e um couro de cobra que valia mais do que um dia de serviço na lavoura.
         Apesar da hora avançada fizemos uma descida lenta e sem problemas, caminhando em fila à moda dos índios e assoviando aquela musica de João do Vale muito apropriada para aquele momento: “A ema gemeu/ No tronco do juremá....”


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  A “Escadinha” ainda tem condições de uso necessitando apenas de uma revisão na trilha melhorando as passagens mais difíceis. Uma Informação importante que chegou de última hora é de que em dias passados, um domingo de novembro/10, alguns  de serra-negrenses, usando uma trilha altermativa, subiu a Serra Velha e  fez  um Pic-nic no topo do LAGEDO GRANDE, uma iniciativa oportuna que deve ser repetidas  antes que os esportistas do “Eco-Esporte de Aventura” chegue lá primeiro.

Foto obtida no GOOGLE